DIÁRIO DE VIAGEM













Primeiro dia

Ava estava mais excitada com a primeira viagem de avião do que com os dez dias de viagem pela frente. Eu já tinha falado pra ela que íamos viajar à noite, que não ia dar pra ver muita coisa. Mesmo assim foi muito legal. Ver a excitação nos olhos dela, o riso tentando ser contido, as mãozinhas cerradas no braço da cadeira e um gritinho quando o avião finalmente decolou me fez voltar a sentir alguma emoção em voar. Chegamos a Santo André na mesma hora que saímos de BH por conta do horário de verão, que a Bahia não adotou. Pensei logo no teletransporte. Beam me up.

Acordamos bem tarde e fomos pra praia. Aqui as ruas são de terra e areia, tudo plano. Bom pra exercitar as pernas. Uma prancha de bodyboarding debaixo do braço e uma sacola digna de um feirante no outro. Bóias, protetor, livros, água, biscoitos, carteira e brinquedos.

- A areia tá muito quente, papai

- Não dá pra te carregar, Ava, olha só (mostrei as tralhas). Anda nesse pedacinho de sombra.

- A areia tá entrando nos meus dedos.

- É assim mesmo, gatinha, praia é assim

No mar

- A água dói meu olho

- É assim mesmo, você se acostuma.

- A areia entrou no meu bumbum

- É assim mesmo, querida, é só tirar na água

No almoço

- Tem muita mosca aqui

- É assim mesmo. Quando incomodar, você as espanta.

- Quero nuggets.

- Não tem nuggets aqui, vamos comer o que tem.

- QUERO A MAMÂE

Depois de mais uma voltinha pela cidade fomos dormir. Fiquei tão tenso que pensei que estava cometendo um erro enorme de tê-la trazido pra cá. Afinal eram minhas férias também. Eu queria e precisava descansar. Mas sabia que ia melhorar. Acordei no dia seguinte com um baita dor no ombro. Dessa vez a prancha fica.

Segundo dia

Acordamos tarde de novo e fomos direto ao lugar que aluga bicicletas. Escolhemos uma com uma cadeirinha de criança acoplada à garupa. Ótima invenção baiana. Foi muito legal, andamos por várias praias, ela aprendeu a furar ondas, a pegar jacaré. Visitamos lugares lindos, ficamos à sombra de uma castanheira. Quando vi, Ava já estava lá em cima. Era o que precisávamos. Pensei feliz. Pra quem ficava em casa escalando os batentes das portas, estar aqui deve ser um upgrade. No fim da tarde ficamos sabendo que havia uma aula de capoira pra crianças. Chegamos em cima da hora. Ela, que faz capoeira na escola não fez feio não. E ainda aprendeu alguns movimentos novos. Dormimos felizes e eu achando finalmente que tinha feito a coisa certa.

Terceiro dia

Como locutor eu posso trabalhar onde estiver. Estava atendendo a telefonemas normalmente, gravando e mandando o material pela internet, num cybercafé ao lado. Ficamos lá toda a manhã. Tomamos café e eu trabalhei enquanto Ava ficou brincando com meu iphone. Aliás como convencer uma criança de que um telefone que é feito pra crianças operarem não é brinquedo? O meu não vai durar muito. Mas, lá pela hora de ir embora Ava foi fazer xixi e soltou do banheiro um grito de horror. Saí correndo e encontrei-a na porta do banheiro apontando lá pra dentro como se tivesse visto o fantasma do Bob Esponja. Foi pior. Um baita calango estava dentro do vaso sanitário. Salvamos o bichinho e disse pra pequena que ela teve sorte. Calangos são medrosos e inofensivos. Mas cá pra nós, se tivesse acontecido comigo eu ia passar um vexamão. Eu grito alto pacas e não ia ser nada bom para minha fama de mau.

O dia correu bem até a hora que, à noite, fomos conversar com a mãe dela via skype. Depois do papo ela ficou triste e foi dormir chorando de saudade. Ai ai. Mas depois eu vi que errei no timing. Ela estava tão cansada que apagou 1segundo depois de deitar. Da próxima eu acerto.

Quarto dia

Nesse dia eu inventei de fazer uma feijoada e ainda tinha de cantar a noite. Ava ficou com meus amigos e com Vivian, minha anfitriã, quase todo o tempo. À noite ela foi ao show, dançamos uma música juntos, ela ficou conversando com alguns convidados por um tempo e apagou em cima de almofadas. O difícil foi levá-la meio dormindo, de bicicleta, pra casa. Fomos cantando brilha, brilha estrelinha pra ela não apagar no caminho.

Quinto dia

Acordamos cedo e fomos pro parque aquático em Arrail d’Ajuda. Eu nunca havia ido a um. Foi um dia movimentadíssimo. Toboáguas, piscinas, tirolesas, escorregões e arranhões. Ava amou. É lindo ver a expressão de estupor de felicidade em seu filho. E ainda arrumou jeito de participar de uma roda de capoeiristas que se apresentaram por lá. Chegamos em casa mudos e felizes, tomamos banho, nos beijamos, apagamos.

Sexto dia

Fomos nós e um casal de amigos a cidadezinhas aqui perto, Belmonte e Guaiú. Ava estava insuportável. Chorava por qualquer coisinha à toa, não queria comer nem pastel de queijo. Pela primeira vez na viagem recorri à mais rudimentar forma de psicologia infantil. Um beliscão bem dado. Fiquei um pouco arrependido à princípio, principalmente quando ela disse que tava demorando a deixar de doer, mas ela ficou um doce daí em diante, cheia de sorrisos, beijos e apetite. Parecia que ela estava me implorando por um corretivo.


Comentários

Aline Satiko disse…
Que delícia deve ter sido essa viagem, tirando as intempéries, que é comum quando se trata de crianças...
A Bahia é lindaaa!!!!
E olha, quando digo que criança pede limite, não falo demais não, e nem assim, ela deixou de te amar né?
Uscia disse…
Lindo demais a tua forma de escrever!
Virei fã e venho aqui sempre!
Nina disse…
Coisa boa essa viagem de vocês dois, esse aprender mútuo. Melhor ainda a construção das lembranças duradouras!

Ah, posso palpitar numa coisa? Já fui boadrasta e sou mãe separada. A melhor hora para a criança ligar para mãe é aquela em que ela está envolvida em atividades prazerosas e nem dá muita bola para o telefonema. A hora próxima à dormir é sempre a pior, mistura a saudade com o cansaço. Às vezes é o adulto quem precisa dessa afirmação de amor que vem com o choro de saudades.

beijo pra vocês!
Aggeo Simões disse…
Pois e, garotas. To aprendendo quebrando a cabeça. Obrigado pelas dicas e pelo carinho.beijos.
Toilet disse…
Amei o relato. Me emocionei.
É muito importante esses momentos entre vocês dois.
Também aprendi que não devo ligar para a minha filha a noite quando ela está com o pai. Já passei um sufoco com isso, e a culpa bateu ainda mais forte. Agora só ligo durante o dia e normalmente ela fala bem rapidinho porque está feliz entretida com alguma brincadeira. Laura
Cristina João disse…
Oi Aggeo,
Uau, que aventura ... é muito bom tirar férias e com crianças é melhor ainda, né??
Passa lá no RECOMADRES, estamos com saudades!
Beijos pra você e sua companheira de viagens,
Cris João
(www.recomadres.blogspot.com)
Paty disse…
Me vi nos seus depoimentos. Como oscilamos nos sentimentos quando somos solteiros e pais, né?
Bom sabe que não sou uma navegante sozinha à bordo. A partir de agora, estarei aqui lendo e trocando experiências quando possível.
Taty Battistela disse…
Ooi Papai.
Adorei seu blog, sempre leio!
Super bacana a forma como vc escreve sobre a sua linda relação com tua filha.

Faça uma visita ao meu e se quiser seguir, fique à vontade! Eu sigo o seu!
Nutrição, moda, decoração, música, filmes, comportamento, ilustrações, sexo, amor, são alguns dos assuntos que procuro sempre postar. Se você se identifica com algum desses temas seja bem-vindo(a).

Beijos!

http://coisaspontocom.blogspot.com/
Julia disse…
olá! por algumas vezes, vi você e sua linda Ava, em Santo André. estou de volta a BH mas meus pensamentos continuam naquela tranqüilidade...
bem, fiquei sabendo do blog, durante seu show no Casa Praia e achei bem legal...
mas acabei de pensar numa situação: imagina, se a Ava tivesse discernimento para também escrever um diário sobre suas férias com o pai...
seria muito interessante!!! :o)
Júlia
Sônia Cristina disse…
Olá,
Primeiro quero te dizer que adoro teu blog, tua forma de escrever, já sigo há bastante tempo.
Deve ter sido linda a viagem.
Ava é linda.
Obrigada por compartilhar.

bj

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